TEMPO, UMA QUESTÃO DE PERSPECTIVA.
No ritmo acelerado que costumamos levar a vida descobri que precisamos fazer muito mais do que administrar o tempo para conseguir parar um pouco e ter momentos de lazer e interiorização.
Em seu livro “Arte de Viver” Roman Krznaric, historiador da cultura e membro docente fundador da The School of Life de Londres, apresenta algumas ideias que venho utilizando e que tem me ajudado a resistir à tirania do relógio que agora divido com você.
Primeiramente mudei meu modo de falar sobre o tempo. É importante nos darmos conta de que o conceito de tempo é estruturado por metáforas, por isso, tomei consciência da maneira sutil como elas operavam sobre minha mente. Uma das metáforas mais correntes na vida de todos nós é a do tempo como mercadoria: gastar tempo, comprar tempo. Outra é a do tempo como posse: dar um minuto do seu tempo. Com esse conhecimento busquei então reconhecer como usava essas metáforas, submetendo-as a um exame minucioso e fazendo experimentos com outras. Fui cada dia mais virando um detetive das metáforas segundo as quais eu vivia, observando quando usava expressões como “fazer o tempo render” ou “poupar tempo”, e passei a perguntar a mim mesmo se elas eram de fato apropriadas. Percebi assim que falar simplesmente “usufruir” o tempo corresponderia melhor aos meus desejos e elevei meu nível de consciência metafórica.
Fui me rendendo cada vez mais as ideias de Krznaric ao colocá-las em prática e ver que mudavam a minha vida. Passei a celebrar a lentidão habitual e me questionar “porque me parecia tão difícil ir mais devagar”. Cheguei à conclusão que, como a maioria das pessoas eu era impelido pelo medo. Uma explicação mais profunda é que eu tinha medo de que uma pausa mais prolongada me desse tempo para perceber que minha vida não era tão significativa e satisfatória quanto eu gostaria. Assim, tomei algumas medidas práticas e mais radicais para desacelerar a vida, como por exemplo, deixar de usar relógio, adotar um ritmo mais suave no modo de sorver o mundo, passar a comer devagar e reduzir o número de compromissos. A melhor maneira que descobri para ter mais tempo e apreciar a vida ao máximo, sem sombra de dúvida, foi planejar menos atividades.
Busquei também aprender com culturas alternativas do tempo. Como continuava a propor Krznaric em sua obra, observei que a cultura ocidental é dominada por uma noção linear do tempo, a flecha do tempo que vem do passado, atravessa o presente e ruma ao futuro. Situado nesse caminho, me preocupava com o que aconteceu ontem e com o que acontecerá amanhã, e tinha uma clara incapacidade de me localizar no presente, de experimentar o agora. Assim procurei me guiar pelo tempo balinês, falado por ele, que se divide basicamente em dois tipos: dias cheios e dias vazios. Nesse sistema, a passagem linear do tempo é mitigada, e o tempo se torna mais pontual que contínuo. Adotei também o pensamento cíclico sobre o tempo ensinado no yoga e na meditação, que consiste em escapar do tempo, abandonando o passado e o futuro para viver completamente no presente.
Assim, para finalizar minha aventura sobre o tempo, as ferramentas mais poderosas que encontrei para estar no mundo de forma diferente foi desfrutando diariamente da prática da meditação e do yoga, além de mergulhar de cabeça em uma perspectiva de longo prazo, me libertando do hábito de pensar em curto prazo e reconsiderando o significado do presente.
〰 por André Tavares